O próximo da lista é o Joapa, ele pegou a bolsa e viajou no fim de semana, só o encontrei alguns dias depois, mas ele foi bem pontual, não demorou a entregar-me o pacote. Antes de me devolver, esclareceu que o Glauber também havia feito uma troca.
Já virou praxe esperar para chegar em casa para conferir o resultado do último trajeto. Fiz o mesmo, portanto. Primeiro li o que os meninos escreveram. Joapa: “Minha troca é provocativa. Ambições de ganhar ou trapacear de alguma forma neste jogo que você inventou. Trocando peças, também me aproprio de suas memórias, por outras minhas”. Logo lembrei-me de quando ele pediu para que eu esclarecesse as regras desse trabalho, antes de levá-lo. Ele realmente encarou a proposta como um jogo, de regras e subversões. Fiquei tentando adivinhar qual era, então, a troca. Ele teria recolhido mais de um objeto? Uma quantidade tão precisa, quarenta, que já me fazia pensar em simbologias do número quatro, estaria agora deficitária?
Deixo de lado conjeturas pra ver o que Glauber me trouxe: uma máscara do estilo Zorro, logo reconheci que ele utilizou-se dela em alguma festa à fantasia, de que também participei. Ele diz, no papel: “Objetos voyeuristas. Escondem o observador e desnudam o observado. Troca fetiche”. Duas palavras importantes: voyeurismo e fetiche, aplicadas à sedução e também ao ato de colecionar. Realmente já li que o colecionador se incumbe de tarefas de coletar e guardar objetos tomando aquilo como o ato sexual: ver a coleção alheia é um ato de voyerurismo, com certeza, e o fetiche ainda é mais presente, quem exibe sua coleção o faz com um prazer narcisista de estar certo de que aquilo o pertence, e não ao outro.
É partindo desse ponto que começo a enxergar a subversão a “minhas” regras: existem ainda dois itens não catalogados no percurso de minha coleção. Um colar feito de contas de sementes vermelhas, ouvi dizer que de falso pau-brasil, e um paralelepípedo de madeira, coberto por um papel estampado preto e branco, meio amarelado pelo tempo. Desenhos de arabescos, muito bonito. Já que o Glauber escreveu “objetos”, concluo que foi ele o autor dessa oferenda, também por ser vermelho e ter uma relação maior com sua proposta. A máscara eu já sabia ser dele por tê-la visto na festa. Ótimo, estamos quase resolvidos. Só preciso ainda entender que trapaça seria essa e começo a conferir o conteúdo de minha bolsa. Já sei que faltam três itens, primeira empreitada contra o pré-estabelecido por mim. Vejo em seguida que falta a agulha curva. Tudo bem, vou à lista e descubro faltarem: a canequinha esmaltada e a joaninha, além da agulha (apesar de a rolha de cortiça que protegia sua ponta afiada estar lá ainda) e a pena de cisne. Saldo: foram embora quatro objetos, em troca de três. Ponho a culpa, claro, toda no Joapa, que me intrigou com essa história de regras. Ele é esperto, averiguou o fundo falso que construí e onde depositei a pena, meu retrato e a tesoura sem fio.
Fui lá conferir e encontrei a agulha! Afinal, foi conferindo o fundo falso que percebi faltar a pena. Gostei da sofisticação de sua “trapaça”: recolheu dois itens, sem ter sido permitido, mas me fez acreditar que foram três, ao desconectar a agulha da rolha. Causou realmente um rebuliço, mudou o número de objetos ao transformar a cortiça e agulha, que se encontravam juntos (portanto sendo sendo um volume e considerados um item), em dois objetos separados. Agora não tenho mais “uma agulha curva, bem grossa, parecida com essas de cirurgiões. Para que ninguém se machuque ao manusear a bolsa, protegi sua ponta com uma rolha de cortiça”, como descrevi no início, e sim uma agulha curva e uma rolha de cortiça. Cresceu a aura do pedaço de cortiça que tinha uma presença mais funcional. Cresceu também o perigo do pessoal se espetar ao manusear os pertences dessa bolsa. Talvez demore um pouco a ser descoberta, afinal, vou deixá-la onde encontrei, no fundo falso.